Itajubá e as Enchentes

A cidade de Itajubá, desde os primórdios de sua fundação, tem sofrido com as conseqüências das enchentes, por estar inserida na planície de inundação da bacia hidrográfica do rio Sapucaí. Em 19 de março de 1819 o Padre Lourenço da Costa Moreira, fundador de Itajubá, celebrou a primeira missa em um tosco altar improvisado no alto do outeiro onde atualmente se encontra a Matriz Nossa Senhora da Soledade, na altitude de 859m. A partir da clareira desse altar, a caravana do padre deu inicio da construção do novo arraial com a abertura da rua Direita (hoje rua Cel. Rennó) que descia do outeiro até o largo dos Passos (hoje praça Theodomiro Santiago) na altitude de 847m.

Inicialmente os desbravadores se preocupavam em habitar as zonas mais altas do novo arraial que dificilmente eram atingidas com as cheias do rio Sapucaí. O primeiro registro de enchente ocorreu em 1821 apenas dois anos depois da fundação de Itajubá. Com o crescimento desordenado e acelerado da cidade, as áreas mais baixas e alagáveis foram também sendo ocupadas pela população, mesmo sabendo que poderia ser afetada pela inundação do rio Sapucaí nos períodos chuvosos. Os registros históricos de Itajubá relatam a ocorrência de um total de 74 cheias nos últimos 126 anos sendo 13 eventos de cheias de grande magnitude.

Nem mesmo o grande investimento feito pelo DNOS na retificação do rio Sapucaí, no período de 1957 a 1969, resolveu o problema das enchentes da cidade de Itajubá. As conseqüências trágicas das enchentes na zona urbana de Itajubá tem ocorrido principalmente devido a ocupação desmesurada da planície de inundação do rio Sapucaí. É o que aconteceu com a catastrófica enchente de janeiro de 2000 quando a cidade foi duramente castigada pelas cheias do rio Sapucaí, ficando privada do abastecimento de água potável, energia elétrica, telefone e bloqueio dos acessos rodoviários durante os três dias que permaneceu debaixo d´água.

O rio Sapucaí nasce no município de Campos do Jordão- SP, numa altitude de 1650m. Por isso o rio Sapucaí é considerado um rio de montanha pois suas águas correm serra abaixo no trecho íngreme das encostas da Serra da Mantiqueira, formando corredeiras e cachoeiras até atingir a confluência do rio Bicas, próxima da cidade de Wenceslau Braz e apresentando nesse trecho uma grande declividade de 25%. Devido a esse fato, os histogramas gerados nas cabeceiras tendem a aumentar a velocidade das águas e produzir um volume hídrico bem acima da capacidade máxima da vazão da calha do rio Sapucaí provocando inundações nas partes baixas da planície aluvial. Logo a jusante, o rio Sapucaí recebe o rio Santo Antonio, oriundo de Delfim Moreira e a partir deste local ele se transforma em um rio de planície. Após a foz do rio Santo Antonio o rio Sapucaí atinge a zona urbana da cidade de Itajubá apresentando-se com uma declividade media de apenas 0,05%, correndo num leito sinuoso, lento e com uma baixa capacidade de escoamento, podendo provocar o transbordamento de sua calha maior no período de chuvas intensas. 

A zona urbana de Itajubá é cortada pelo rio Sapucaí, numa extensão de 12 km e por vários de seus afluentes, que também contribuem para o aumento da freqüência das enchentes. Dos afluentes da zona urbana destacam-se os ribeirões José Pereira e Água Preta, na margem direita, e os ribeirões de Anhumas e Piranguçu na margem esquerda. Em todos esses afluentes, as condições hidráulicas de escoamento são bastante desfavoráveis durante as cheias, podendo ocorrer efeito de remanso, mesmo antes das águas do rio Sapucaí transbordar de sua calha principal.

O desenvolvimento urbano também produz obstruções ao escoamento dos cursos d­´água como aterros, pontes, adutoras, rodovias e entupimento das boca-de-lobo e galerias do sistema de drenagem. Como resultado da histórica ocupação inadequada em áreas consideradas “non-aedificante” da planície de inundação do rio Sapucaí, Itajubá tem se tornado uma cidade bastante vulnerável a enchentes, ocasionando enormes prejuízos a população, comercio e as industrias instaladas no distrito industrial. Bairros como Santa Rosa, Varginha, Medicina, Boa Vista, Vila Rubens, entre outros, foram construídos nas regiões ribeirinhas do rio Sapucaí e de seus tributários e até mesmo, em nível abaixo do seu leito maior. A impermeabilização do solo urbano impede a infiltração natural das águas pluviais. O asfaltamento das ruas nas regiões baixas tem se comportado como uma capa isolante, ocasionando aumento do volume das águas superficiais na zona urbana, que deverão ser escoadas pelo rio Sapucaí através do sistema de drenagem, muita das vezes deficiente.

A falta de áreas verdes na zona urbana é também um outro fator que pode dificultar a infiltração das águas de chuvas intensas. Atualmente a cidade de Itajubá apresenta um baixo índice de áreas verdes, equivalente a 0,30 m²/habitante quando a ONU recomenda 12 m²/habitante. Quanto as medidas de controle de enchentes elas podem ser classificadas em estruturais e não-estruturais. As medidas não-estruturais são medidas do tipo preventivo, como monitoramento das áreas de inundação, sistema de alerta conectado a defesa civil e zoneamento das áreas de risco. Quanto as medidas estruturais temos o projeto da COPASA, que foi aprovado pelo governo do Estado de Minas Gerais, para a construção de 3 (três) Barramentos nos rios Sapucaí, Lourenço Velho e ribeirão Vargem Grande, para proteger contra os efeitos das enchentes as cidades de Itajubá, Santa Rita do Sapucaí e Pouso Alegre. 

Os reservatórios de detenção das inundações deverão permanecer vazios e atuar apenas nas grandes enchentes. É um projeto considerado de alto investimento mais, sem dúvida, é a melhor solução técnica e economicamente viável para a contenção do excesso de água das cheias na região do Sul de Minas. Trata-se de um empreendimento estimado em 300 milhões de reais que trará como benefício proteger uma população estimada de 210 mil pessoas, das quais 70 mil não mais serão desabrigadas pelas enchentes. Reduzirá as perdas econômicas, evitará contaminações de doenças e protegerá a infra-estrutura urbana das cidades. O primeiro Barramento foi planejado para ser construído no bairro Freires para proteger a cidade de Itajubá, que deverá conter o excesso de chuvas advindas de Campos de Jordão. 

Trata-se de um investimento de R$ 92 milhões de reais, sendo R$ 80 milhões para as obras e 12 milhões para desapropriações. Foi projetado uma barragem de concreto com 33m de altura e 260m de comprimento, com reservatório para um volume de 34 milhões de m³ e uma área inundável de 192 ha. Terá três galerias de fundo, sendo uma para permitir livre escoamento de descarga normal do rio Sapucaí e duas galerias controladas por comportas, por onde serão liberadas as vazões de enchentes.  

(Imagem ilustrativa Dall-e AENAI)

Escrito por: Eng° Paulo José Braz Rosas

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